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Partida brilhante no 10
Walter Browne começou cedo a vida de globetrotter. Nascido em Sidney, foi morar nos EUA ainda criança. Aos treze anos entrou para o famoso Manhattam Chess Club de Nova York onde pôde desenvolver seu talento para o xadrez. Aos 18 anos, retornou para a terra natal e representou a Austrália em duas Olimpíadas. Mais tarde, fixou-se nos EUA e chegou a ser campeão norte-americano várias vezes.
No plano internacional, Browne obteve o título de GM e conseguiu importantes vitórias nos anos 1970s e começo dos 1980s. Entre seus melhores desempenhos, podemos assinalar o 2o lugar em Amsterdam 1971 (ao lado de Keres e Portisch), 1o em Wijk aan Zee 1974 (na frente de Donner, Matulovic, Timman, Sosonko), 1o em Reykjavic 1978 (na frente de Larsen, Miles, Hort, Olafsson, Polugaevsky), 1o Wijik aan Zee 1980 (junto com Seirawan, na frente de Korchnnoi e Timman), 1o Surakarta 1982 (na frente de Chandler, Christiansen, Sosonko, Hort, Miles, Gheorghiu, Ribli), 1o/3o em Naevsted 1985 (junto com Larsen e Vaganian, na frente de Tahl, Short, Nikolic, Andersson, Nunn, Agdestein).
A partir daí, suas atuações perderam fôlego e raramente voltou a jogar com o mesmo nível dos bons tempos. Exceções foram o 3o em San Francisco (ao lado de Christiansen), o 1o/2o no Open de Philadelphia 1991 (com Hjartarson), o 2o em Linares 1994 (na frente de Nogueiras, De Firmian e Miles) e o 4o/6o no open de Las Vegas 1997 (ao lado de Granda Zuniga e Morovic, na frente de Ibragimov, Smirin, Psakhis, Hjartarson e Miles).
Seu adversário nesta partida era o forte GM norte-americano R. Byrne que alcançou o apogeu de sua carreira quando se classificou entre os oito melhores do mundo que disputaram o torneio de candidatos de 1974. Dois anos depois, ele deixou de se classificar para o torneio de candidatos por apenas ½ ponto.
A partida que veremos decidiu o campeonato dos EUA de 1977. Browne obteve o título de campeão com apenas ½ ponto sobre o vice, exatamente R. Byrne. As pretas jogaram a abertura de forma imprecisa e permitiram que o adversário montasse um forte ataque contra o rei na ala de dama. Browne sacrificou a qualidade para agilizar o ataque e, no momento em que não parecia haver meios para reforçar sua posição, descobriu um brilhante sacrifício de peão que realizou a ruptura decisiva. Partida conduzida com a firmeza e clareza de pensamento dos grandes mestres. Como bem definiu o MI D. Kopec, "um dos melhores jogos de ataque da década."
Browne,W - Byrne,R
Campeonato dos EUA, 1977
1.d4 f5 2.Cc3
Esse lance era uma novidade na época.
2...Cf6 3.Bg5 d5
Evita que as brancas joguem logo e4.
4.Bxf6 exf6 5.e3
Aparentemente as pretas têm bom jogo por causa do par de bispos, da coluna semi-aberta 'e' e da possibilidade do avanço ...f5-f4. Mas Browne consegue evitar esse avanço de peão.
5...Be6
É evidente que esse bispo tem dificuldades para se mover por causa dos peões em casas claras.
6.Bd3 g6 7.Df3
Bloqueia a tentativa de preta de jogar ...f4 e ajuda a fixar o peão preto em d5.
7...c6
Mais um peão em casa branca.
8.Cge2
Essa era a formação almejada por Browne. As brancas podem jogar Cf4 e também h4-h5.
8...Cd7 9.h3!
Prepara o avanço g2-g4. Se 9.h4 as pretas teriam jogo sólido com 9...h5 10.Cf4 Bf7
9...Db6
Byrne percebe que ficará com jogo muito passivo para seu gosto e por isso tenta complicar a posição. Observemos as opções:
10.g4! Dxb2?
A velha questão da dama preta que toma o peão em b2. É evidente que Byrne quis complicar a partida, mas pagou um alto preço porque a abertura da coluna 'b' proporcionou a vantagem decisiva para as brancas. O correto teria sido 10...fxg4! 11.hxg4 Bf7 12.0–0–0 0–0–0 13.Cf4 Bd6 14.Th3 +/=
11.Tb1 Da3
As brancas teriam vantagem depois de 11...fxg4 12.hxg4 (12.Txb2? gxf3 13.Cf4 Bf7 14.Txb7 g5 -/+) 12...Da3 13.Bxg6+ Rd8 (13...hxg6 14.Txh8) 14.Tb3 Da5 15.Txh7 Txh7 16.Bxh7 Bb4 17.Rf1 +/-
12.gxf5 Bf7 13.Txb7 Bb4 14.0–0
É evidente que Browne deve ter ficado tentado a jogar 14.Rd2!? De qualquer modo, o roque deixa o rei protegido.
14...0–0–0?!
Teria sido melhor se conformar com a posição estrategicamente inferior depois de 14...Bxc3 15.Tb3 Dxa2 16.Txc3 +/-
15.Txb4!
O sacrifício da qualidade permite que a outra torre possa se incorporar ao ataque sem sofrer contestação. O aparentemente óbvio 15.Ba6?! seria respondido por 15...Bd6 (15...Bxc3?? 16.Dg3 Ce5 17.Txa7+ Rb8 18.Txf7 Dxa6 19.Cxc3+-) 16.Txa7+ Rb8 17.Txd7 Txd7 18.Tb1+ Ra8 19.Tb6 com posição complicada.
15...Dxb4 16.Ba6+ Rc7
16...Rb8? 17.Tb1
17.Tb1 Dd6
É preciso proteger a diagonal h2-b8. Por exemplo, se 17...Da5 então a dama branca entra na diagonal: 18.Df4+ Ce5 (único lance possível) 19.Tb7+ Rc8 (19...Rd6 20.Txf7 Dxa6 21.dxe5+ e o mate é inevitável: 21...fxe5 22.Db4+ c5 23.Cb5+ Rc6 24.Tc7+ Rb6 25.Dxc5+ Ra5 26.Cbc3+ Db5 27.Dxb5#) 20.Txa7+ Rb8 21.Txf7 Dxa6 22.Txf6 gxf5 23.Dxe5++-
18.Tb7+ Rc8
A possibilidade latente do xeque descoberto com a torre é apenas um dos temas da combinação branca.
19.Tb3+
Como era de costume, Browne dispunha de apenas algumas dezenas de segundos para jogar mais vinte lances. Neste instante ele repete movimentos para ganhar algum tempo de reflexão no relógio de xadrez.
19...Rc7 20.Tb7+ Rc8 21.e4!!+-
Esse é o tipo de lance tático que os computadores ainda têm dificuldade em encontrar e que um grande mestre do calibre de Browne era capaz intuir com apenas alguns segundos de reflexão. A troca de peões incorporarão a dama e o cavalo ao ataque.
21...Cb8
Tomar o peão seria fazer o que obviamente as brancas queriam: 21...dxe4 22.Cxe4 Dd5 23.Db3 Cb6 (23...Dxb3 24.Cd6#) 24.Txa7+ Rb8 25.Dxb6#; Outro lance também não resolveria: 21...Tdg8 22.exd5 Bxd5 23.Cxd5 cxd5 24.Tb6+ Rc7 25.Txd6 gxf5+ 26.Rh2 Rxd6 27.Cf4 Cb6 28.Da3+ Rd7 29.Bb5+ Rc8 30.Dxa7 Tg5 31.Ba6+ Rd8 32.Ce6+ Re8 33.Bb5+ Cd7 34.Dxd7#
22.Cb5!
Ameaça 23.Cxa7# mate.
22...cxb5 23.Dc3+ Cc6
23...Dc6 24.Te7+ Cxa6 25.Dxc6+
24.e5! Dc7
24...fxe5 25.dxe5 d4 26.Cxd4
25.e6!!
As pretas abandonaram. Uma possível continuação teria sido 25...Td6 (25...Dxb7 26.Dxc6+; 25...b4 26.Tb6+ Db7 27.Dxc6+) 26.Txc7+ Rxc7 27.exf7 b4 28.Dc5 gxf5 29.Bb5 Thd8 30.Bxc6 Txc6 31.f8D 1–0