\n'; document.write(barra); } } changePage();
Curtas 3
23. Frio dos russos. Petrópolis, cidade fundada por colonos alemães na serra fluminense (Estado do Rio de Janeiro), está a quase 1.000 metros de altitude em relação ao nível do mar. Nas noites de inverno, não são incomuns as temperaturas próximas de zero grau Celsius. Por causa disso, o imperador D. Pedro II costumava passar por lá os meses de verão. Frio para os brasileiros, mas certamente ameno para os europeus, e ameníssimo para os russos, correto, amigo leitor? Pois é, no interzonal de Petrópolis, em 1973, algumas manhãs tinham temperaturas agradáveis, próximas a 10 ou 15 graus. Quem estava na porta do local do torneio (Clube Petropolitano) pôde constatar, surpreso: os jogadores mais agasalhados, com casacos de peles, gorros e cachecol... eram os soviéticos! Não deixava de ser engraçado ver aqueles homens, acostumados com o frio de Moscou e Leningrado, tremerem com o friozinho da serra a uma hora de carro das praias do ensolarado Rio de Janeiro.
24. Livro bom. Bogoljubow era conhecido pela autosuficiência. Depois de ter escrito um livro muito bom de xadrez, andou perdendo algumas partidas de torneio. Sua conclusão não poderia ser outra: "Agora que todos leram meu excelente livro, fica fácil jogar de modo tão maravilhoso como eu."
25. Camisa velha. Contam alguns observadores mais atentos (e nós estivemos lá) que durante o interzonal do Rio de Janeiro em 1979, o soviético Tigran Petrosian jogou todas as rodadas exatamente com a mesma camisa. Superstição, falta de cuidado ou confiança na qualidade da lavanderia do Copacabana Palace? Sua esposa, Rona, era conhecida pelo cuidado com que protegia o marido. Bem, talvez Petrosian tivesse vários exemplares do mesmo modelo de camisa. Se a roupa ajudou eu não sei, mas o fato é que no final do interzonal, Petrosian estava entre os três classificados para o torneio de candidatos.
26. Nomes italianos. Nos séculos XVI e XVII e Itália viveu um esplêndido período cultural. Nomes como os de Leonardo da Vinci, Galileu, Michelangelo, Maquiavel e Monteverdi são glórias italianas e da humanidade. Esse florescimento intelectual certamente explica a importância dos jogadores italianos de xadrez naquele período. Alguns dos mestres da época publicaram os primeiros tratados teóricos do xadrez, entre eles o famoso livro de Grecco. Ainda hoje, alguns termos do xadrez italianos são empregados por jogadores de todo o mundo e em todos os idiomas. Por exemplo, fianchetto (pequeno flanco), gambito (perninha), ataque Fegatello ("pequeno fígado", certamente o frágil ponto f7 das pretas), abertura Giuoco Piano ("jogo suave").
27. Ronda do animal. Enquanto o adversário refletia a respeito do próximo lance, Alekhine gostava de levantar a cadeira e andar em círculos ao redor da mesa. Parecia um tigre faminto, rondando a vítima a ser devorada. É evidente que muitos jogadores ficavam perturbados com essa pressão psicológica. O inimigo que nos observa pelo cangote, depois funga e caminha apressado em volta do tabuleiro... que coisa desagradável! O soviético Mikhail Tal também tinha o mesmo hábito. Embora nas relações pessoais Tal fosse infinitamente mais afável do que Alekhine, sobre o tabuleiro era igualmente selvagem, um canibal terrível.
28. Ar viciado. Mikhail Botvinnik era capaz das maiores proezas durante a preparação para um torneio. Como todo não-fumante, ele detestava a fumaça do cigarro. O que fez então? Jogou várias partidas de treinamento nas quais seu preparador, o GM Ragosin, propositalmente fumava e dava baforadas bem no rosto de Botvinnik! Isso sim é que é maneira de enfrentar pressão psicológica.
29. Carecas e cabeludos. Quem joga melhor xadrez, os carecas ou os cabeludos? Naturalmente, a quantidade de material acima do couro cabeludo não tem ligação alguma com a quantidade de massa cinzenta abaixo do couro cabeludo. Vejamos: Anderssen, Tartakower, Spielmann, Mikhail Tal e Bronstein eram todos carecas. Curiosamente, mestres do agudo jogo combinativo. Lasker, Capablanca, Botvinnik, Petrosian, e Karpov todos bem coroados por cabelos. Os cabeludos tenderiam a dar mais atenção ao jogo posicional? Timman continua cabeludo. Kasparov não é calvo, Kramnik até pouco tempo atrás tinha cabelos compridíssimos. Fischer usava cabelos curtos com topetinho, bem estilo rapaz americano anos 60. Mas os anos passaram e ele perdeu bastante cabelo. Aliás, parece que o fenômeno se repetiu com o nosso GM Mecking. De qualquer modo, as irmãs Polgar são lindas e, claro, jamais ficarão carecas...
30. Mídia. Um grande mestre soviético ia participar de um programa na tevê de Moscou e estava um tanto nervoso. Pediu que a Mikhail Tal que fizesse uma sugestão: "O que devo falar amanhã, Misha?". Tal, sempre muito bem humorado, respondeu: "Diga para que ouçam o rádio. Estarei dando uma entrevista no mesmo horário!"
31. Rubinstein e Lasker. Um dos crenças mais correntes no xadrez é a de que Em. Lasker nunca teria aceito a proposta de Rubinstein para um match pelo título mundial. Na verdade, Lasker havia anunciado que enfrentaria qualquer mestre que reunisse o dinheiro suficiente para a bolsa. Quando Rubinstein arrumou um patrocinador, Lasker aceitou o desafio. Mas o fracasso no torneio de São Petersburgo 1914 (ficou abaixo dos cinco primeiros) e as desgraças provocadas pela primeira guerra mundial arruinaram as chances do GM polonês. Verdade seja dita: em todos os torneios em que os dois participaram, Lasker sempre ficou na frente de Rubinstein. No confronto individual, o escore foi vantajoso para Lasker também. Emanuel Lasker foi um jogador extraordinário, e poucas pessoas hoje têm idéia do quanto era superior a seus contemporâneos.
32. Instrução. Ninguém se torna grande mestre apenas com o talento natural. São necessários anos de estudos de teoria de xadrez, várias horas por dia, dia após dia, anos após ano, ininterruptamente. Todo GM é também um erudito de xadrez. Mas será necessário ter educação superior para se tornar um bom jogador? Alguns dos maiores mestres não apenas terminaram a faculdade como atingiram o mais alto grau de estudo, o título de doutor (PhD). Foi o caso de Emanuel Lasker (matemática e filosofia), Euwe (matemática), Botvinnik (engenharia elétrica). Mas também houve fortíssimos jogadores que chegaram ao topo do mundo enxadrístico sem terem completado seus estudos secundaristas: Bobby Fischer, Leonid Stein e Tigran Petrosian.
33. Vitória no empate. Na última partida do match pelo campeonato mundial de 1935, o holandês Max Euwe precisava de apenas um empate para conquistar o título do russo Alexander Alekhine. No momento em que estava colocando as peças na posição inicial, Euwe esbarrou e derrubou o próprio rei. Então, dirigiu-se em voz a baixa ao adversário: "Doutor, aceito o empate a qualquer instante da partida." É óbvio que Alekhine não poderia concordar com o empate. Todavia, o desenvolvimento do jogo foi amplamente favorável a Euwe, que conseguiu dois peões a mais em posição totalmente ganha. Nada mais restou a Alekhine do que aceitar o empate e cumprimentar o vencedor do match.
34. Genro arriscado. Dois mestres de xadrez conversavam: "Você sabe, no clube há muitas pessoas que jogam xadrez a dinheiro, e apostam alto. Meu genro, infelizmente não joga xadrez." O outro perguntou: "Infelizmente? Ainda bem que ele não joga xadrez! Então, qual é o problema?". O amigo aflito esclareceu: "Pois é, esse é o problema: ele não joga xadrez..."
35. Ele "enxerga"!?. O GM alemão Sämisch dava uma exibição de simultâneas às cegas (sem ver o tabuleiro, jogando só com a memória). Na platéia, uma linda moça observava tudo com atenção. E Sämisch, claro, não tirava os olhos de cima da dama. No final da simultânea, a jovem não se conteve e protestou: "Isso é uma fraude. Ele não é cego conversa nenhuma. Enxerga tudo perfeitamente!"
36. Valeu Haroldo! O campeonato brasileiro de 1984 desenrolou-se em Cabo Frio RJ, no hotel Malibu, que fica em frente à praia do Forte. O torneio foi jogado em sistema suíço, aberto para todos que tivessem rating CBX superior a 2000. Mas houve uma grande exceção: o niteroiense Haroldo Cunha dos Santos Jr só tinha rating 1959 e foi autorizado a participar. Haroldo justificou plenamente a inserção: entre os 67 jogadores, chegou em 14o /18o lugar, ao lado de figuras notáveis como o MI Francisco Trois e Rubens Filguth. (* Hoje, o amigo Haroldo está radicado em Santa Catarina. Foi 5o lugar no campeonato brasileiro de 2001).